Rita Lee volta com álbum cheio de ironia autodestrutiva


Ao colocar o topo de sua cabeça vermelha para fora da toca, Rita Lee causa correria. Sua decisão em não receber jornalistas para entrevistas é antiga. Faz tudo por e-mail como uma espécie de autocontrole do que diz e do que será publicado. Sua decisão em não fazer mais shows é recente. Diz em tom pouco convincente que quer vagabundear depois de 47 anos, a não ser que peçam por sua volta “com jeitinho”.



Sua fala aos jornais tem uma razão clara: divulgar seu disco Reza, um álbum de 14 inéditas que reveza forte pegada rock and roll com faixas de programações eletrônicas. Um feito de cinismos autodestrutivos que Rita não usa só nas músicas. Tanta ironia, reconhece, lhe serve também de proteção.



Há algo biográfico em músicas novas como Vidinha (“Tomo ansiolítico em estado crítico, na crise de pânico, Propofol orgânico”)? Ou em Tô um Lixo (“Nem banho tomo mais, dinheiro tanto faz, a cabeça tá um jazz, eu vivo pelos cantos feito bicho, eu tô um lixo”)?



Vidinha tem um pé no biográfico humano, não vamos brigar por um detalhe no bolo, sou ghost writer de mim mesma, nessas músicas faço papel da Mulher Esgoto. Apesar de estar com tudo em cima (tô bonitinha sim, nem vem), tenho uma queda pela autodepreciação, uma queda por achar que minha vida sempre foi besta mesmo.



Fala sério quando pede proteção em músicas como Reza (“Deus me acompanhe, Deus me ampare, Deus me levante, Deus me dê força”)? E não valem tiradinhas sarcásticas…
Bicho, que atire a primeira pedra quem não precisa de proteção. Oh céus, posso saber porque me proíbes das tiradinhas sarcásticas? Queres me cortar as asinhas, justo eu, uma anja que neste exato momento opero o milagre de dar entrevistas… Tá bom, eu paro.



Seu jeito de escrever músicas e e-mails parece desviar para o mesmo balde tudo o que pode atingi-la se levado a sério. Esse riso aí virou escudo?



Agora me pegastes direitinho… Este ‘desvio’ a que se refere chama-se jiu-jítsu defensivo. Todo mundo mente em entrevistas. É sabido que sou a boba da corte e Maria Bethânia, a rainha. Se tu preferes, sei mentir a sério feito um bom político. Tá bom, eu paro. Quando eu morrer dirás que eu era bacana.





E a decisão de nunca mais aparecer em entrevistas ‘ao vivo’ a protege do quê?



E eu lá sou mulher de sair de cena com o rabo entre as pernas, Julio Maria? Proteção só a divina, haja naja humana por aí. Mas tu és ateu, creio eu. Deus não precisa que acreditemos nele, nossa raça é arrogante, enfiou na cabeça que é a imagem e semelhança do cara, ele não deve gostar muito disso.



Rita, por que afinal decidiu não fazer mais shows? (Foi o que ela anunciou em janeiro)



Foram 47 anos non stop na estrada, mereço vagabundar, você não acha?



Seu público não merece ao menos um último show que não aquele que acabou na delegacia? (Em janeiro ela foi detida depois de xingar os policiais em Sergipe)



Ora ora, não poderia ter sido um final mais roquenrou!!! Esta pergunta é a mais bonitinha. Se você pedir com jeitinho, um beijinho, tô fazendo showzinho, amorzinho.



Seu marido Roberto de Carvalho não é injustiçado por aparecer menos do que deveria quando vocês lançam um disco?



A verdade é que 70% do trabalho quem faz é o Roberto. O cara simplesmente prefere ficar nos bastidores, eu entendo. Lembra quando seus tios jornalistas diziam que ele não passava de um malandro espertinho e eu a bonitinha otária? Estamos casados há 36 anos. Se aqueles seus tios ainda estiverem vivos, faz um favor pra mim? Manda eles se Fo…



Há pouco tempo você dizia que não ouvia mais músicas.



Eu menti.



Pelo que, ou contra o que, as pessoas devem rezar mais?



Não se reza contra, meu filho, rezamos sempre a favor. Estou escrevendo um manual de pragas contra inimigos. Se virar música, vai se chamar Plim! Vire Bosta.











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