Rita Lee é pra se ouvir de joelhos e com “reza” boa




Quando eu conheci a Rita passei a compreender de onde brotava o rock que tanto falavam no Brasil. Não há nada mais gostoso que ouvir a exploração dos instrumentos e de uma voz que recusa playback, após a Jovem Guarda, que vestiu o País de jaqueta preta. Depois que o Brasil conheceu a trupe da Jovem Guarda, eis que surge a mulher que deixaria de joelhos aos seus cabelos acobreados. Pra rezar? Agora sim! Mas ela nunca negou seu teor revolucionário. Quando eu ouvi as guitarras de Roberto de Carvalho e de sua prole Beto Lee, e mais recente e com audácia as introduções do piano de Danilo Santana, eu conheci uma das minhas predileções, o rock, mas o da Rita Lee. Agora com “Reza”, seu mais novo e impecável álbum, cheio de balangandãs e balacobacos.
Ouvir Rita Lee é um pouco além de estourar uma trincheira, ultrapassar uma geração, retroceder e interceder, ir além de qualquer tempo, reler e queimar seus próprios contos e ver chamuscar arte. A Rita é um vulcão! Prepare-se para aprender novos adjetivos, porque eu vou precisar de muitos daqui pra frente!
“Por causa de um baseadinho?”, foi a frase que trouxe de volta as indagações de Rita Lee para a história. Ela chegou a ser convocada para depor numa delegacia, em seu show de despedida dos palcos em Sergipe, após incomodar-se com a presença de policiais revistando fãs em seu show. E foi, sem arrependimento. Não precisamos levantar bandeira alguma, mas seu verbo é transitivo e eu assino embaixo.
O dia em que nos encontramos eu tinha pendurado no ombro uma câmera fotográfica. Mania de jornalista em andar com o olho eletrônico sempre ao alcance, espreitando o que pode acontecer no caminho. Dei-lhe um abraço, típico de quem encontra a Rita, e seu frenético batom avermelhado, que contrasta com os cabelos, fitou meu rosto e alimentou seu sorriso. A Rita colocou as mãos na minha câmera e disse: “Isso aqui não é feito pra fotografar? ‘Tá’ esperando o que pra tirar nossa foto?”. Isso é artista que se respeite? É! Tiramos a foto e o carro chegou. Foi uma das últimas vezes que nos vimos. Estou com saudades. O palco, mais ainda!
No episódio em que Rita foi autuada pela polícia, marcara, tipicamente, sua despedida aos palcos. Os devera roqueiros derramavam lágrimas e já inspiravam as saudades. Mas, enquanto fechava sua vida dos palcos, Rita e Roberto preparavam um álbum de cetim. “Reza” chegou para coroar os cabelos de fogo e nos colocar a ouvi-la de pernas pro ar. Rita, então, despedia-se dos palcos.
“Reza” tem uma coisa que talvez um filho, ludicamente falando, de Dorival Caymmi e Janis Joplin representaria em pessoa. O batuquinho do baticum de uma macumbinha, com a magnífica versão de rock dedilhada com gozo nas guitarras e nos graves do baixo mestre. Tantas palavras, algumas que vou inventando, outras que já ouvi entre a Bahia, São Paulo, Rio e Londres, mas são cabais para falar de “Reza”. Os trabalhos abrem-se com a primeira faixa chamada “Pistis Sophia”, e como o Mar de Sophia e o Mundo de Sophia, clássicos, desvelam a religiosidade de Rita. É um auto-retrato de fé, num ruído gostoso. Consigo ver Rita beijando santinhos, inventando suas próprias orações e pouco se lixando pra opinião de sua versão ateia de se viver. São sons, sem predicados, com a função de introduzir o álbum, jogar os búzios na mesa, limpar o congá, jogar arruda na cabeça, dar um trago no charuto, jogar o uísque pra trás e lavar as mãos com água de cheiro. Sem esquecer dos três nós na fitinha do Bonfim. “Reza” começa assim, trazendo em seguida a música que intitula o álbum.
Rita Lee Jones, já foi batizada com nome de artista, nasceu no último dia do ano, na capital paulista, e foi descrita por Caetano Veloso como “a mais completa tradução” de São Paulo, na canção “Sampa”. No Brasil, é a cantora que mais vendeu álbuns na história, com mais de 65 milhões de cópias.
Rita integrou os Mutantes, na década de 60 e meados de 70, onde serviu letras até hoje reconhecidas em sua voz com uma lembrança enxuta dos fãs. Sempre com o dom de improvisar instrumentos, chegou a utilizar uma bomba de dedetização para sonorizar “Caminhante Noturno”. Quando deixou o grupo, ao fim de seu casamento com o outro integrante, Arnaldo Baptista, juntou-se com a amiga Lúcia Turnbull para lançar a dupla As Cilibrinas do Éden. Com o término da dupla, Rita ingressou no Tutti-Frutt, e em seguida fez carreira solo, quando, entre outras, lançou “Ovelha Negra”, mostrando que compositora era. Em 1976 conheceu Roberto de Carvalho, com quem teve três filhos e laçou uma estupenda parceria musical. Um dos filhos é Beto Lee, guitarrista de dedos afiados, que deu-lhes de presente a neta Izabella, pondo outra personagem factual da família Lee para correr pelos corredores do colorido lar de Rita e Roberto.
Na época em que o rock ganhava cores tropicalienses havia uma certa divisão na música. A ditadura rolava solto pelas ruas e a censura pilhava os palcos. Homens sem escrúpulos algum tomavam conta do que hoje chamam de política. Elis Regina passava pelos corredores de festivais sem levantar assunto com Rita Lee, mesmo a encontrando pelo caminho. E quem nunca admirou a jazzística voz de Elis? Rita, mesmo a adorando, ficava na dela.
Em 1976, Rita é presa por porte de droga. Não que a tenha usado, mas amigos frequentavam sua casa e largavam fagulhas pelas peças. Grávida ouvia suas músicas em mente por detrás de ferros quentes da prisão. A única a visitar foi Elis, e essa foi tamanha surpresa. Como grandes amigas, Elis fazia rebuliços na prisão, e quando Rita saiu a colocou pra cima, convidando para espetáculos e musicais. A chamava de Maria Rita, e anos depois, ao nascer sua única filha, a batizou com o apelidinho que nomeava a amiga do rock.
Em 1996 Rita Lee, enquanto brincava com seu cachorro, caiu da sacada de sua casa e triturou o côndilo maxilar. O episódio quase a afastou definitivamente da música.
Não posso deixar de relembrar um encontro histórico. Rita em casa, toca o telefone e o pai da bossa apresenta-se cantando “Mania de Você”, ainda ao telefone. Rita cai em si, e comprova a veracidade da sorrateira voz que sussurra sua composição. João Gilberto, ao outro lado da linha, a convidava para gravar, em 1982, um especial seu na TV Globo. Enviou para ela uma fita com a canção “Jou Jou Balangandãs”, e continuava a telefonar para explicar tudo sobre a música. Além de tudo disse o vestido que ela usaria. A apresentação aconteceu, sem ensaio. Foi uma das únicas vezes que vi João Gilberto cantar de pé.
Rita Lee mandou para as agulhas das vitrolas inúmeros Lps. Eu ainda admiro muito aquela capa azulada em tons de água, com os traços tropicais, do álbum que trazia seu abraço com Roberto de Carvalho. Tenho ele comigo. O som do disco é mais íntimo, aquele ruído da agulha beijando o acetato constantemente é como ouvir os pássaros que solfejam na penúltima faixa de “Reza”, que também ganhou bela versão em disco.
Essa penúltima faixa tem um nome bem complicadinho de pronunciar, mas fica fácil na segunda estrofe. As músicas de versos e cheias de transições instrumentais e com bárbaros solos gravam rápido na cabeça da gente. Duas vezes ouvindo o CD eu já estava repetindo “As Loucas” e “Tô um Lixo”, ambas com letras rápidas e de um entendimento direto. Voltando à penúltima faixa, “Bamboogiewoogie”, tem um cangerê com cordas e palmadas. É uma novidade, como foi “Bat Macumba”, na Tropicália.
“Reza” tem o calibre da Biscoito Fino, que é a casa, em plena sala de estar dos bons amigos. Dos bon vivants, da boa música.
No último show em que fui havia uma banda, vou poupar os palavrões, que aliás, já evitei durante todo o texto, que era “boldo na veia”. Danilo Santana arrebentando nos teclados, como se fosse a ópera do rock. As cordas regidas por Beto Lee e Roberto de Carvalho, além do baixo de Brenno Di Napoli. Os vocais de apoio de Rita Kfouri e Debora Reis e as pancadas na bateria de Edu Salvitti. Voltei pra casa neste dia sem querer ouvir mais nada durante uma semana. Eles todos são muito bons.
Não vou ficar falando das outras músicas, apesar de não ter falado nada sobre “Reza”, a segunda faixa do álbum. Cada um tem uma reza, a da Rita é cheia de mandingas. Imagine um patuá cantado. Isso é “Reza”, a canção guardada que foi jogada a rosa dos ventos desenhada na capa do CD. Mas, não é uma rosa dos ventos. São as cópias do olhar de Rita banhado pelos fios vermelhos de suas madeixas. Ouçam o disco inteiro e verá que cada um tem algo a declarar. Ou cale-se, vá pintar. Ela faz assim! É interessantíssimo.
Rita Lee deixou no ar sua volta aos palcos, após declarar que não voltaria mais a fazer shows. Eu estou apostando que volta. Sua intimidade é o palco, é o som, é estar entre suas mais chegadas guitarras e de apito na boca.
Rita, volta que a gente tá esperando você!




Texto por Nyldo Moreira publicado no blog Tangos & Boleros em 23/07/2012.



15 comentários para Rita Lee é pra se ouvir de joelhos e com “reza” boa

  • sandra helena revoredo vieira

    Rita!Rita!Rita!E toda sua trupe…claro…e que trupe,hein,Rita?!

  • Wesley

    Bela crítica! Ela sabe bem como fazer um disco de rock!

  • Shirley

    Desde que a vi emergindo em minha telinha de TV, isso há 46 anos, tornei-me sua fã. Deu-se como um momento mágico, onde todas os meus anseios tornavam-se ali realizados, com sua majestosa aparição. Sou sua fã incondicional, e fico prazerosa de saber que seu sucesso será sempre eterno. Parabenizo-a por mais esse grande sucesso,e que volte o mais breve aos palcos para assim desfrutarmos de suas composições e sua bela voz, tão harmoniosa. Um grande beijo de sua eterna fã.

  • Francisco

    Todas as congratulações possíveis a Rita Lee e sua banda por esse trabalho íntegro e excelente oferecido a todos nós, a voz da artista Rita continua a mesma de todos os tempos. Se depender do povo, jamais esta equipe deixaria de fazer shows.
    Deus os abençoe.

  • Débora Mota

    Nyldo Moreira !

    Vc é um critico maravilhoso ! escreve com a alma, coração e muito profissionalismo. As suas criticas , são de uma qualidade unica ! Continue sempre assim, nos preseteando com textos assim .

    Abraço forte

    Débora Mota

  • Adoro tudo que venha de voce

  • Laerte

    Show de texto, Nyldo!
    #VoltaRainha!!!!

  • MARCOS BORGES REGO

    RITA EU CANTO SEU CANTO …

  • Wilson Pestana

    Sem rumo, a margem do realismo irreal em discernir o óbvio do ululante, um semblante das nuvens me diz! É por ali, eu ouço, obedeço e estou seguindo cegamente as ondas do meu psique infinitamente.

  • Wilson Pestana

    Ir ao site clicar em agenda e nada em programação. Que desperdício com os contam os dias sem a proeminente artista.

  • Paulo lecir

    Sou um grande fã!!!Gostaria que você e sua banda voltasse com o show em Brasília? Volta logoooooooooooo.Deus te cure e te guarde.

  • Thiely

    Texto incrivel, parabéns!
    #VoltaRainha

  • nossa Nyldo, ,meus parabens, vc exalta o melhor da rainha do rock brasileiro. parabens

  • Jonas

    Nyldo, não te conheço, até hoje não tinha lido nenhum texto de sua autoria, mas cidadão, mandou bem com suas palavras definindo Rita, Roberto, Beto e todos os acompanhantes. Nossa cara, confesso que há muito tempo estava esperando alguém com essa percepção para redigir a qualidade que essa familia possui. Um ponto muito alto no seu texto, é aquela sensação que temos quando saimos de um show de rock da Rita: não queremos ouvir nada durante dias, e ficar somente com a lembrança do som, luz, figurinos, etc, etc, etc..
    Bem,e para terminar: volta Rita, volta, pois escrevi outro dia que na igreja aos domingos tem una senhora de 80 anos cantando durante toda a missa, então, dona Rita, para de fazer corpo mole, e vamos trabalhar…
    Abraços
    Jonas.

  • Malu Vasconcellos

    Que ótima matéria. Descreveu tudo como é de fato, ficou lindo o texto! Rita volta pra gente, apoiado!

Escreva um comentário